Continuando o post de ontem, teço um breve comentário sobre a polêmica lançada pela mídia a partir de uma resposta do Santo Padre contida no livro de Peter Seewald. Por certo, que capacidade têm os meios de comunicação de transmitir uma notícia divulgada por uma agência de informação, sem ao menos ter o trabalho de buscar as fontes originais! E o pior é que o divulgado por eles é o que ficará na mente da grande maioria. Também dos católicos pouco informados…
Abaixo, alguns comentários em marrom:
Em termos jornalísticos, a viagem a África foi totalmente ofuscada por uma única frase [isso já é habitual nos meios de comunicação: desvia-se o assunto para que não se escute o que realmente o Papa quis dizer. Alguém por acaso leu os discursos do Santo Padre em sua viagem à África?]. Perguntaram-me porque é que, no domínio da SIDA/AIDS, a Igreja Católica assume uma posição irrealista e sem efeito – uma pergunta que considerei realmente provocatória, porque ela faz mais do que todos os outros [isso os laicistas não reconhecerão. Gostaria de ver como ficaria o orçamento dos governos se a Igreja Católica abrisse mão das suas obras de caridade. Não são eles mesmos que querem impedir a manifestação pública da fé?]. E mantenho o que disse [o Papa não "voltou atrás" como afirmaram alguns meios]. Faz mais porque é a única instituição que está muito próxima e muito concretamente junto das pessoas, agindo preventivamente, educando, ajudando, aconselhando, acompanhando. Faz mais porque trata como mais ninguém tantos doentes com SIDA e, em especial, crianças doentes com SIDA. Pude visitar uma dessas unidades hospitalares e falar com os doentes.
Essa foi a verdadeira resposta: a Igreja faz mais do que os outros porque não se limita a falar da tribuna que é o jornal, mas ajuda as irmãs e os irmãos no terreno. Não tinha, nesse contexto, dado a minha opinião em geral quanto à questão dos preservativos [o Papa está tratando do tema dos preservativos no contexto da AIDS. Há diversas outras casuísticas sobre o tema dos preservativos que vêm ao caso], mas apenas dito – e foi isso que provocou um grande escândalo – que não se pode resolver o problema com a distribuição de preservativos [alguém duvida disso? Qual país conseguir reduzir consideravelmente a taxa de infecção de HIV com a política de mera distribuição de preservativos?]. É preciso fazer muito mais. Temos de estar próximos das pessoas, orientá-las, ajudá-las; e isso quer antes, quer depois de uma doença.
Efetivamente, acontece que, onde quer que alguém queira obter preservativos, eles existem. Só que isso, por si só, não resolve o assunto. Tem de se fazer mais. Desenvolveu-se entretanto, precisamente no domínio secular [atenção: a política ABC é secular, não religiososa! E, exatamente gerou consideráveis resultados utilizando a conduta que a Igreja sempre ensinou. Interessante, não?], a chamada teoria ABC, que defende “Abstinence – Be faithful – Condom” (“Abstinência – Fidelidade – Preservativo”), sendo que o preservativo só deve ser entendido como uma alternativa quando os outros dois não resultam. Ou seja, a mera fixação no preservativo significa uma banalização da sexualidade, e é precisamente esse o motivo perigoso pelo qual tantas pessoas já não encontram na sexualidade a expressão do seu amor, mas antes e apenas uma espécie de droga que administram a si próprias. É por isso que o combate contra a banalização da sexualidade também faz parte da luta para que ela seja valorizada positivamente e o seu efeito positivo se possa desenvolver no todo do ser pessoa.
Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto [segundo Tornielli, o texto original do Papa fala em "prostituta"] , em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização [não quer dizer o Papa que o preservativo seja causa de humanização da sexualidade, senão que, seu uso por estas pessoas - que não é defendido pela Igreja - denota que o sexo não pode ser utilizado sem nenhuma limitação, e, portanto, pode-se encontrar aqui uma "primeira parcela de responsabilidade" - que pode apontar para uma maior consciência acerca do verdadeiro valor da sexualidade humana], uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. Não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por VIH/HIV. Essa tem, realmente, de residir na humanização da sexualidade.
Quer isso dizer que, em princípio, a Igreja Católica não é contra a utilização de preservativos?
É evidente que ela não a considera uma solução verdadeira e moral [também no caso citado continua sendo imoral]. Num ou noutro caso, embora seja utilizado para diminuir o risco de contágio, o preservativo pode ser um primeiro passo [no sentido explicado no comentário acima] na direcção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana.»
Aproveito para recomendar este artigo de D. Rafael, que postei hoje no Presbíteros.


A imprensa sempre age de má fé quando o intuito é polemizar e desmoralizar a Igreja.
Infelizmente, muitos católicos são preguiçosos e/ou relativistas e não procurarão saber o outro lado, o lado verdadeiro da história…
Ainda não tinha visto esse post! Gostei muito das explicações, padre!
Não vejo a grande mídia divulgando que Uganda é o país com menor índice de infecção de AIDS e o método usado pelo governo é a castidade (não sabia que era o tal do ABC – pra mim não havia a parte do preservativo).
Revmo.,
Os papas anteriores a João XXIII eram bastante discretos em suas relações com a mídia. Entrevistas, pouquíssimas, artigos e livros idem.
Ah, mas quando pegavam uma pena, fustigavam os erros de seus tempos com uma clareza cristalina…
É mais do que óbvio e ululante que uma entrevista do Papa Bento XVI para um livro não é um ato do magistério do papa. Ainda mais, se o assunto contém as imprecisões e ambiguidades em questão.
Mas que seria melhor para o mundo todo que este livro entrevista nunca tivesse sido escrito, isso seria…