Quase ao mesmo tempo em que foi publicado o novo livro de Andrea Tornielli e Paolo Rodari – comentado aqui no blog recentemente -, dois jornalistas, Gregory Erlandson e Matthew Bunson, lançaram nos Estados Unidos, um livro sobre o Papa e o tema dos escândalos sexuais envolvendo o clero.
O vaticanista Sandro Magister faz notar em seu site, que a conclusão de ambos trabalhos é que estão em curso três ataques distintos contra Bento XVI, cada ataque por um diferente inimigo [segue uma tradução, com ligeiras alterações do seu artigo]:
O primeiro e principal é o inimigo externo. São as correntes de opinião e os centros de poder hostis à Igreja e a este Papa.
O segundo inimigo são esses católicos – entre os quais há não poucos sacerdotes e bispos – que vêm a Bento XVI como um obstáculo a seu projeto de reforma “modernista” da Igreja.
Por último, o terceiro inimigo são esses funcionários da cúria vaticana que, em lugar de ajudar ao Papa, causam-lhe dano, por incapacidade, por ignorância ou também por opor-se a ele.
E, como Bento XVI interpreta estes ataques dirigidos a ele?
Na homilia da Santa Missa de clausura do Ano Sacerdotal, no último 11 de junho, o Papa referiu-se a um “inimigo”:
Era de se esperar que ao “inimigo” não fosse prazeroso perceber que o sacerdócio brilhara novamente; ele teria preferido vê-lo desaparecer, para que, ao final, Deus fosse retirado do mundo. E assim ocorreu que, precisamente neste ano de alegria pelo sacramento do sacerdócio, vieram à luz os pecados dos sacerdotes, sobretudo o abuso de crianças, no qual o sacerdócio, que leva a cabo a solicitude de Deus pelo bem do homem, converte-se no contrário.
E o Papa se expressou deste modo ao começo de sua viagem à Fátima, na coletiva com os jornalistas durante o vôo para Portugal:
(…) os ataques ao Papa e à Igreja vêm não só de fora, mas que os sofrimentos da Igreja vêm justamente do interior da Igreja, do pecado que existe na Igreja. Também isso sempre foi sabido, mas hoje o vemos de um modo realmente terrificante: que a maior perseguição da Igreja não vem de inimigos externos, mas nasce do pecado na Igreja, e que a Igreja, portanto, tem uma profunda necessidade de re-aprender a penitência, de aceitar a purificação, de aprender por um lado o perdão, mas também a necessidade de justiça.
Não nos surpreende que, ante a iminência de sua elevação ao papado, Ratzinger tenha evocado uma reforma da Igreja, que comece com a purificação que elimina a “sujeira”, em primeiro lugar, dos ministros de Deus:
Quantas vezes se abusa do Santíssimo Sacramento da sua presença, frequentemente como está vazio e ruim o coração onde Ele entra! Tantas vezes celebramos apenas nós próprios, sem nos darmos conta sequer d’Ele! Quantas vezes se contorce e abusa da sua Palavra! Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta auto-suficiência!
Não nos surpreende que tenha convocado um Ano Sacerdotal com o objetivo de conduzir o clero a uma vida santa.
Não nos surpreende que a liturgia seja tão central neste pontificado. O sacerdote vive para a liturgia. É ao sacerdote que Deus encarregou preparar Sua mesa para os homens, dá-lhes Seu Corpo e Seu Sangue, oferecer-lhes o dom precioso de Sua mesma presença.
Há uma misteriosa lucidez na visão que unifica os ataques ao atual pontificado, como se atuasse neles uma “mão invisível”, escondida inclusive para os mesmos atores. Uma mão, uma mente que intui o desígnio de fundo de Bento XVI, e, em conseqüência, faz de tudo para combatê-lo.
No Evangelho segundo São Marcos, há um “segredo messiânico” que acompanha a vida de Jesus e que permanece oculto para seus mesmos discípulos, mas não para o “inimigo”. O diabo é que reconhece imediatamente em Jesus o Messias salvador.
O paradoxo dos ataques atuais à Igreja é que, precisamente enquanto querem reluzi-la à impotência e ao silêncio, revelam a sua mais profunda essência.



Comentários