A Folha de São Paulo publicou por esses dias uma matéria divulgando estudos científicos que indicam que a religiosidade pode proteger da morte por problemas cardíacos e de doenças como hipertensão.
Constatar os benefícios da religião para o que crê é perceber um indício a mais de que ela atua em favor da natureza humana.
Esses tipos de conclusões científicas não são provas contundentes, mas apontam para uma verdade que a Igreja sempre afirmou: que o homem é por natureza um ser religioso.
A religião não é fruto de um determinado processo cultural, mas as manifestações religiosas nas diversas culturas e períodos históricos são expressão de uma verdade ontológica humana. Está no ser do homem sua tendência ao transcendente, ao absoluto, de tal modo que – como afirmava Jaspers – “se supro o que é absoluto para mim, automaticamente outro absoluto ocupa seu posto”, e Chesterton com ideia semelhante: “quando um homem não acredita em Deus, não é que não acredite mais em nada: é que ele acredita em qualquer coisa”. Mesmo os ateus mais aguerridos, em seu furor contra a religião, acabam convertendo seu ateísmo em religião. Pense, por exemplo, na paródia religiosa na qual se converteu o positivismo comtiano.
Agora, o que não pode acontecer é que consideremos a religião boa por conta dos benefícios “fisiológicos” que ela eventualmente possa nos proporcionar. Essa é, infelizmente, uma tentação que ronda frequentemente a existência dos fiéis: a de considerar boa a fé, pelo fato dela poder fazê-los “sentir-se bem”.
Quando a fé é convertida em terapia de bem-estar, ela passa a ser desfigurada em sua essência mais profunda: já não se trata mais de uma busca do homem por Deus, mas uma busca de si mesmo, de uma autorrealização pessoal.
Uma fé, assim vivida, ignora que a autêntica realização humana consiste em sair de si e abrir-se ao Outro.
Enquanto estivermos fazendo da fé uma procura de nós mesmos, jamais estaremos aptos para acolher a salvação que vem de Deus, cujos benefícios são, de longe, infinitamente superiores aos que podemos esperar.


Caro Padre Demétrio, ótimo texto! Via dia desses um pedaço do ‘Fala que eu te escuto’, da Record, quase que por curiosidade antropológica. E é impressionante como Deus é instrumentalizado ali. Não apenas pelos ‘pastores’, mas pelos homens e mulheres que ali estão. Um senhora dizia que não aceitava as dores que sentia, que se recusava a aceitar, e que por isso procurou a seita do Macedo, pois Deus ‘tinha’ que curá-la. Ora, pensei, quem é servo de quem? É Deus o servo do homem? Quão belo o verdadeiro cristianismo que nos ensina a aceitar as dores, a aceitá-las, se não até com certa gratidão, pelo menos com resignação. Esperar e suplicar a cura de Deus é uma coisa; exigi-la é outra, é inverter o sentido do universo e transformar Deus em xarope, como o senhor bem disse. Se Cristo fosse isso que eles pintam, simplesmente não teria se sacrificado, não teria sentido dores, teria cedido à tentação no deserto, teria saído da cruz quando provocado a tanto.
Grande abraço!
Esse é um fenômeno muito comum… as pessoas se aproximam da fé porque estão com problemas, seja de saúde, seja familiares, seja financeiros… e querem que milagrosamente todos os problemas sumam de uma hora para outra, sem qualquer comprometimento da parte delas… já ouvi uma vez que “poxa, estou ATÉ indo à Missa aos domingos, mas minha vida continua enrolada !”… demonstrei satisfação por essa pessoa estar indo à Missa, e perguntei se não gostaria de se confessar, comungar… a pessoa disse: “não, peraí, calma.. estou indo devagar…” … na verdade a pessoa não queria mudar de vida, pois precisaria fazer algumas renúncias… ou seja, querem que Deus faça tudo, mas não estão dispostos a fazer nada por Deus…
Parabéns Padre Demério. Muito bom texto!
abraço!
Essa é uma grande tentação da contemporaneidade cientificista: encontrar provas empíricas do divino. Todo semestre uma grande revista de circulação nacional estampa em suas capas: “Acharam o DNA da oração!”. Ou “Encontrou-se o lado do cérebro que reza”. Reducionismo perigoso… Infelizmente alguns cristãos menos atentos caem nessa armadilha.
Boa sacada alertar-nos, Pe. Demétrio.
Abração!!!!